A pergunta foi feita sem rodeios: você prefere uma vaga híbrida ou uma vaga 100% presencial pagando 50% a mais?
Em São Paulo, 84,7% dos profissionais ficaram com o híbrido. Apenas 15,3% aceitaram trocar a flexibilidade pelo aumento. Os números são de um levantamento da Data Tax com 1.565 candidatos ativos no Brasil, 259 deles no estado de São Paulo, publicado com exclusividade pelo Estadão em julho.
No cenário nacional, o resultado se inverte. Fora de São Paulo o dinheiro pesa mais: 58% dos candidatos aceitariam voltar ao presencial em troca dos 50% adicionais, e 42% manteriam o modelo híbrido.
Por que São Paulo responde diferente
A explicação apresentada pelo responsável pelo estudo é bem concreta: trânsito intenso, rodízio de veículos, grandes distâncias e horas perdidas no transporte. Nenhuma dessas variáveis aparece no contracheque, mas todas aparecem no dia.
Vale fazer a conta. Um profissional que gasta duas horas por dia entre ida e volta acumula cerca de 40 horas por mês no deslocamento. É uma semana de trabalho inteira, não remunerada, que some da vida da pessoa todo mês. Some a isso o custo de transporte, de alimentação fora de casa e o desgaste de chegar em casa às nove da noite, e a proposta de 50% a mais começa a parecer menos generosa do que soa no papel.
O estudo também aponta que o grupo mais disposto a abrir mão de aumento em nome da flexibilidade está na faixa dos 20 anos.
O outro lado do mesmo mercado
Aqui entra um dado que parece contradizer o primeiro, mas não contradiz.
Na mesma semana, um levantamento da Robert Half mostrou que as vagas de home office integral representam hoje apenas 3% das oportunidades abertas pelos clientes da consultoria. O trabalho remoto em tempo integral virou nicho, restrito a empresas que já nasceram remotas ou que não têm operação local.
Só que a mesma pesquisa mostra que 52% dos profissionais considerariam trocar de emprego caso a empresa reduzisse a flexibilidade. E 54% dos gestores reconhecem que o modelo de trabalho influencia diretamente a atração e a retenção de talentos.
Ou seja: a oferta de vagas 100% remotas encolheu, e ao mesmo tempo mexer na flexibilidade de quem já tem continua sendo caro para a empresa. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
Um executivo da Robert Half ouvido pelo Estadão ainda desmonta a leitura preguiçosa de que isso é coisa de gente nova. “Existe a percepção de que apenas a geração Z prioriza flexibilidade, mas nossos estudos mostram que essa expectativa também aparece entre profissionais mais experientes. Não é uma questão geracional, é uma expectativa que se espalhou pelo mercado.”
O que isso muda na prática
Acompanho esse assunto desde 2015, quando trabalhar de casa ainda era tratado como excentricidade ou como sinônimo de trabalhar menos. De lá para cá, a previsão do “fim do home office” foi anunciada umas cinco vezes, e nenhuma delas se cumpriu do jeito que os anúncios prometiam.
O que os dados desta semana mostram é uma coisa mais interessante do que o cabo de guerra entre remoto e presencial. Eles mostram que a flexibilidade virou moeda. Ela é contabilizada pelo profissional na hora de aceitar uma vaga e tem um valor que, em cidades como São Paulo, supera 50% de aumento no salário.
Para quem contrata, a leitura prática é direta. Exigir presença integral não é proibido nem impossível, mas custa caro, e o custo aparece na dificuldade de preencher a vaga, no salário que vai precisar oferecer e no tempo que vai conseguir segurar a pessoa depois de contratada. Empresas que ignoram isso não estão sendo rigorosas, estão sendo caras.
Para quem procura emprego, a leitura é que a flexibilidade pode e deve ser negociada como qualquer outro item da proposta. Ela não é um favor da empresa.
Fontes:
- Estadão — “Home office ou 50% de aumento no salário para voltar ao escritório: o que os paulistas preferem?” (jul/2026)
- Robert Half — levantamento sobre modelos de trabalho no Brasil (jul/2026)
- ODDDA — Futuros Sob Medida, análise de Alexandre Teixeira sobre os dois levantamentos

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