Toda vez que uma empresa anuncia volta ao escritório, o argumento é o mesmo. Em casa a pessoa dispersa. Em casa ela rende menos. Nunca vem com número junto — vem com a cara de quem está dizendo uma obviedade.
Acabou de sair um estudo que mede a produtividade no home office hora a hora, e o resultado vai na direção contrária. Ele foi publicado na Organization Science, uma das revistas mais tradicionais de gestão, e é assinado por pesquisadores da University of Iowa, da Old Dominion e da Ohio State.
Como o estudo mediu a produtividade no home office
Os pesquisadores acompanharam 219 funcionários de uma mesma empresa, que já operava em modelo híbrido, durante cinco dias úteis seguidos. A cada hora, cada pessoa registrava o próprio nível de energia e o quanto tinha avançado nas metas do dia. No fim, 4.812 registros de hora em hora.
Isso é diferente de perguntar “você acha que rende mais em casa?”. A pergunta de percepção sempre dá o resultado que a pessoa quer. Aqui os mesmos funcionários foram comparados com eles mesmos, num dia em casa e num dia no escritório.
Nos dias de home office, cada pessoa avançou mais nas metas e chegou nelas mais rápido. E quanto mais frequente era o trabalho em casa, maior era o ganho.
O mecanismo importa mais que o número
O que me chamou atenção não foi o resultado. Foi a explicação.
O estudo mostra que trabalhar de casa não dá mais energia. Dá energia mais constante. Nos dias em casa, a variação de energia ao longo do dia foi cerca de 33% menor do que nos dias de escritório. E cada ponto a menos nessa variação correspondeu a 26% mais avanço nas metas e 31% mais velocidade para chegar nelas.
Ou seja: o problema do escritório não é que ele cansa. É que ele oscila. Você sobe, cai, sobe de novo, e cada uma dessas transições cobra um pedágio.
Emily Campion, uma das autoras, explicou assim: pensa na energia que custa trocar de tarefa porque alguém apareceu na sua mesa pedindo alguma coisa. Depois você ainda gasta energia para voltar ao que estava fazendo antes de a pessoa aparecer.
E tem um detalhe que vale registrar: o estudo aponta que a qualidade da interrupção importa. Colega que aparece na baia, ruído da mesa ao lado, deslocamento ruim — isso drena mais do que interrupção doméstica, do tipo colocar uma roupa na máquina ou falar com o cachorro. Em casa você tem poder de veto sobre o que te interrompe. Pode ignorar um e-mail, pode desligar a notificação. No escritório, não pode.
Antes que alguém fale em viés de amostra
A primeira reação de quem defende o presencial vai ser dizer que é gente sem filho, que escolheu ficar em casa, de um setor específico.
Os pesquisadores controlaram exatamente isso: filhos em casa, se a pessoa tinha escolhido onde trabalhar e setor de atuação. O efeito se manteve.
O limite do estudo
Uma ressalva, porque não adianta vender o estudo como mais do que ele é: são 219 pessoas de uma empresa só, em cinco dias. É um desenho bom para entender o mecanismo, não para cravar produtividade média de mercado.
O que isso muda no debate
Quem manda voltar para o escritório usa quase sempre os mesmos dois argumentos: colaboração e cultura. Podem ser verdadeiros. Mas agora existe um custo medido do outro lado da conta, e quem decide precisa dizer o que está comprando com ele.
O argumento da cultura, aliás, já tinha levado uma rasteira parecida: outro estudo, com 7.700 profissionais, não encontrou perda de conexão com a empresa entre quem trabalha de casa.
Fontes
Phys.org, setembro/2026. https://phys.org/news/2026-09-remote-workers-productive.html
Bennett, A. A.; Keeler, K. R.; Campion, E. D.; Keener, S. K. “Steady as She Goes: Remote Work Benefits Daily Goal Progress Through Reduced Energy Variability”. Organization Science, 2026. https://pubsonline.informs.org/doi/10.1287/orsc.2025.20962
University of Iowa Tippie College of Business (release, 01/09/2026). https://www.newswise.com/articles/are-remote-workers-more-or-less-productive

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